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Francisca (PT)

Vi hoje um vídeo que se chama “Cuerdas”.

É uma curta-metragem em Espanhol que ganhou o Prémio Goya 2014 e deixou-me varrida em lágrimas desde o início porque me lembrei da Francisca.

A minha Mãe trabalhou para a EDP durante muitos anos. Por esse motivo, eu (e o meu irmão) tínhamos direito às Colónias de Férias que eram desde os 6 aos 16 anos. Tenho a sorte de ter ido todos os anos. Eram duas semanas sempre vividas ao máximo! Algumas vezes íamos com amigos dos anos anteriores e com quem trocávamos cartas durante o ano e combinava-se o turno e o Campo para onde queríamos ir no ano seguinte.

Havia vários Campos espalhados por todo o País, Castelo de Bode foi sem dúvida o meu favorito e que repeti por 3 ou 4 anos. Castelo de Bode tinha a característica de podermos repetir e (consoante a idade), podíamos ir para a zona das tendas ou para as vivendas.

As vivendas eram para os do último ano e foi inesquecível por todos os motivos. Porque sabia que era a última vez que iria ter aquela experiência e os meus Verões nunca mais seriam os mesmos, porque tínhamos mais liberdade, porque o recolher era sempre mais tarde, porque havia forma de nos escapulirmos e irmos fumar às escondidas.

Eu tinha acabado de fazer 16 anos (faço anos em Julho), estava de férias do meu 1º ano na António Arroio (que tinha sido bastante intenso em todos os sentidos) e estava a começar a conhecer o Mundo.

Mas esta entrada no meu blog não é por isso e estou a desviar-me um bocado. Acontece muita vez quando estou a escrever dar voltas e mais voltas por outros assuntos e depois tenho que me focar para voltar ao início. Faz sempre sentido mas quando escrevo, há algo que toma conta de mim e falo de tudo e mais alguma coisa.

Bem, voltando à Francisca. Num dos Verões em que estive na Colónia de Férias (não me lembro se foi em Castelo de Bode ou em Árvore), um dos projectos para aquele dia era fazer trabalho voluntário. Havia de tudo um pouco mas eu escolhi ir para o Hospital para os recém-nascidos ajudar as enfermeiras. Eu e outra rapariga que também se chamava Sofia.

Não me lembro a que horas chegámos, não me lembro como é que fomos apresentadas às enfermeiras, não me lembro rigorosamente de nada! É uma névoa na minha memória. Lembro-me sim que conheci uma bebé recém-nascida chamada Francisca que havia sido abandonada pelos pais no Hospital e que tinha paralisia cerebral. Havia tubos por todo o lado e um deles era por onde a Francisca era alimentada.

A minha Mãe sempre me tentou proteger de certas coisas. Eu era (e continuo a ser) facilmente impressionável. Há coisas que me chocam demasiado e eu fico a matutar naquilo e não saio dali. É um traço da minha personalidade. Esta foi uma dessas situações.

Eu tinha (se não estou em erro) cerca de 13 anos. Nunca tinha visto nada deste género. E ver uma bebé tão pequenina, tão indefesa, naquela caminha e saber que havia sido abandonada foi ser confrontada com uma realidade dolorosa de mais para ser verdade. Resultado? Já não arredei pé dali.

Não consegui afastar-me por um único segundo e passei o dia a fazer festinhas à Francisca, a olhar para ela, a garantir que a fralda estava limpa, quando ouvia um bip estranho das máquinas, entrava em pânico e chamava logo uma enfermeira. Chamaram-me para o almoço, não quis comer. Sabia que o meu tempo era limitado e não o podia desperdiçar com comida. E no fundo, eu tinha a secreta esperança que os pais da Francisca aparecessem arrependidos e que vissem nela a beleza que eu e a Sofia vimos. Não queria perder esse momento que, infelizmente, não chegou. Esse dia terminou com lágrimas. Eu não queria ir embora, não queria deixar a Francisca e rapidamente essa história se espalhou pelo campo. Estávamos divididos por equipas e a minha foi especialmente cuidadosa comigo nessa fase porque eu não estava a conseguir lidar emocionalmente com a situação. A Sofia era a única pessoa que conseguia perceber!

É curioso que tenha visto este filme hoje porque ultimamente tenho pensado imenso na Francisca. Na verdade, pensei nela ontem à noite e fiz as contas. Eu tenho 30 anos. A Francisca terá 17 ou 18. E eu não sei de nada dela.

No final do turno nesse Verão, era-nos dado um livro com o nome e a morada dos participantes e onde podíamos escrever dedicatórias uns aos outros. Não sei onde está o meu desse ano mas o que a Sofia me escreveu nunca me esqueci “Nunca te esqueças: A Francisca será sempre nossa!”

Eu sei o quanto amo a minha filha, e o quanto eu amei a Francisca naquele dia e durante a minha vida até hoje. Mesmo longe, mesmo não sabendo nada e mesmo não tendo contribuído com nada para a vida dela. Não julgo ninguém mas não consigo compreender como é que alguém pode ter optado por não ter aquele anjo nas vidas deles.

Este vídeo fez-me chorar e fez-me desejar que espero que a Francisca tenha tido a sorte de ter tido uma Maria na vida dela e que onde quer que ela esteja, que seja amada e que sorria.

Vejam o vídeo, é tempo bem investido que mostra o que de melhor há no ser humano.

Beijinhos,

Sofia

 

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