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Trabalhar no Reino Unido – A minha história (PT)

A última vez que aqui escrevi foi há pouco mais de dois anos. Desde essa altura, tanta coisa aconteceu. Tantas mudanças, tantas pessoas já cruzaram caminho comigo e saíram da minha vida quase tão rápido como entraram. Não por algum motivo específico mas apenas porque às vezes a vida é assim mesmo.

Estou em Inglaterra há quase três anos e cada vez que penso nisso fico ligeiramente boquiaberta porque não parecem três anos. De certa forma parece que estou aqui há mais tempo, mas por outro lado parece que foi ontem que aqui cheguei.

Da última vez que escrevi, estava a trabalhar para uma seguradora. Odiava aquilo. Detestava o trabalho em si e ficava super longe da minha casa. Tendo em conta que na altura não tinha carro, demorava horas a chegar ao trabalho e horas a voltar. No entanto, os meus colegas eram absolutamente incríveis – o que tornava o dia bastante melhor – e fiquei bastante próxima com alguns. Passámos de colegas a amigos.

Foi através desse trabalho – e através do meu então chefe – que tive a oportunidade de voltar a trabalhar na minha área – área financeira – mas desta vez, pela primeira vez em terras de Sua Majestade.

Ele sabia o quanto eu estava infeliz a trabalhar com seguros e quando soube de um trabalho na minha área e mais perto de minha casa, enviou o meu currículo e acabei por ser chamada para uma entrevista. Consegui o trabalho mas infelizmente, poucos meses depois, esse projecto foi transferido para Londres e como eu não estava interessada em deixar Bristol (assim como todos os meus colegas) rescindimos amigavelmente.

Desse projecto, consegui entrar para os quadros de um dos maiores Bancos mundiais. Estive lá durante 1 ano e meio e enquanto procurava por novos desafios, candidatei-me a um cargo numa PME (Pequena e Média Empresa) que se especializa numa área muito específica de investimentos. Optei por me candidatar a esse cargo e, eventualmente, aceitar a proposta que me fizeram por dois motivos:

  1.        Ao trabalhar num Banco tão grande, o meu trabalho passava despercebido e não há forma de fazer a diferença (acreditem, eu tentei). Para além disso existem pessoas com egos demasiado grandes cujo único propósito na vida é alimentar o ego através do abuso a funcionários que na estrutura hierárquica estão abaixo deles. Já não conseguia aguentar aquilo e como estava a entrar numa espiral super depressiva vim-me embora.
  2.       Trabalhar para uma PME oferecia-me a oportunidade rara de trabalhar num nicho de mercado onde não existe abundância de pessoas qualificadas. Isto permitia-me uma diferenciação no que diz respeito a especializações nesse tipo de investimentos.

Infelizmente – como vim a perceber rapidamente – pessoas com grandes egos e mentes pequenas podem surgir independentemente do tamanho duma empresa e trabalhar ali, revelou-se uma autêntica decepção.

Trabalhei inúmeras horas sem pedir que me pagassem horas extraordinárias porque realmente acreditava que o mais importante era ter orgulho na minha ética de trabalho e garantir que os clientes receberiam o melhor resultado possível para os pedidos, considerando as taxas elevadas que a empresa cobrava aos clientes (e além do mais existem prazos legais a ser obrigatoriamente cumpridos no Departamento onde eu estava).

Fui estúpida, não fui? Eu sei, mas pronto… Vivemos e aprendemos. Apesar de estúpida, se há algo que não conseguiram roubar de mim, foi o sentimento de voltar para casa, deitar a cabeça na almofada e sentir-me bem comigo própria. Saber que eu fiz por alguém, aquilo que eu gostaria que fizessem por mim se fosse o inverso. E isso não tem preço. Trata-se do meu próprio orgulho e ética profissional e há coisas que o dinheiro simplesmente não compra nem nunca vai comprar.

Mas adiante. Infelizmente, ter ética não leva ninguém muito longe se tivermos que trabalhar com grandes egos e mentes pequenas; Por esse motivo, seis meses depois de começar a trabalhar nessa empresa voltei ao mercado de trabalho.

Vale a pena mencionar que as pessoas com grandes egos não eram sequer uma mão cheia. No entanto, o efeito negativo que esse tipo de indivíduos podem causar a longo prazo em organizações é substancial.

Neste momento estou a trabalhar para outra PME – no mesmo nicho de mercado tal como a anterior (com algumas diferenças, especialmente em relação ao tipo e natureza dos investimentos que o cliente pode escolher, mas não vou entrar em detalhes técnicos e jargão financeiro porque não é esse o objectivo desta entrada) e posso confirmar que estou muito feliz.

Trabalho com pessoas que estão focadas no cliente, no serviço, que estão comprometidos em trabalhar em equipa, em crescer profissionalmente, focados na construção da empresa em conjunto e, mais importante, aqui preocupam-se com os funcionários.

Nunca fui abusada verbalmente (sim, isso existe por estas bandas e ao pontapé), nunca me fizeram sentir que a minha opinião e ideias são inúteis ou despropositadas e reafirmam sempre que o esforço que eu colocar no meu trabalho não passa despercebido.

Cerca de dois de meses depois de começar a trabalhar onde estou, completei dois módulos de formação para funcionários de outros departamentos, tenho um plano de carreira concebido pelo meu chefe e que está em constante evolução e a forma como ele conduz a equipa tem um efeito transversal a todos os departamentos da empresa. Todos os departamentos trabalham juntos com o mesmo objectivo em mente: o cliente.

Tudo acontece por uma razão. E neste momento sinto-me super abençoada por estar onde estou agora.

Há uma conhecida expressão que diz: “tive que beijar muitos sapos antes de encontrar meu príncipe encantado”; acredito que o mesmo pode ser aplicável à minha situação de trabalho actual.

Às vezes paro para pensar como a minha carreira foi catapultada em menos de três anos. Está a anos-luz de distância daquilo que poderia ser impulsionada em Portugal, a menos que eu tivesse o factor “C” involvido.

Aqui, quem trabalha com afinco e dedicação, vai longe. Aqui, os trabalhadores são efectivamente, recompensados – a menos que surjam pessoas com grandes egos e mentes pequenas! Nesse caso, provavelmente enfrentamos uma série de desafios como paredes de betão armado daqui ate a Lua e portas a fecharem-se abruptamente na nossa cara sem qualquer tipo de problema.

Já agora, se alguém que estiver a ler isto estiver nessa situação, aconselho vivamente a sair. É um desperdício da tua dedicação e energia. Ao final do dia, não vale a pena.

O Reino Unido (em relação a trabalho) é um pouco como a América (terra da liberdade e terra das oportunidades), mas num estilo europeu. E provavelmente com um pouco mais de classe. Ah, e com chá. Uma quantidade exorbitante de chá!

Neste momento, estou a juntar dinheiro para comprar uma casa. Para tal, arranjei um part-time aos fins de semana. Qualquer pessoa que queira pedir um Crédito Habitação por aqui, precisa – em media – cerca de 10% do valor da casa e em dinheiro vivo para abater no valor inicial. Os Bancos só financiam 90%.

Comecei o meu primeiro turno este fim de semana e tendo em conta que a minha vida às vezes parece uma novela Mexicana, é certinho como o destino que já tenho histórias para contar!

Mas vou deixar essa história para outro dia 🙂

Beijinhos,

Sofia

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